Gasolina a preço irrisório contrasta com frota envelhecida e indústria automotiva ociosa na Venezuela de 2025
A Venezuela apresenta um cenário paradoxal em 2025: o país ostenta um dos menores preços de gasolina do mundo, com o litro custando o equivalente a cerca de R$ 10, mas convive com uma frota de veículos com idade média de 22,5 anos e uma indústria de Autopeças operando com apenas 30% de sua capacidade instalada. Este contraste acentuado entre o custo acessível do combustível e a realidade de um parque automotivo obsoleto e de uma produção industrial reprimida expõe os desafios estruturais enfrentados pela nação.
No final de 2025, o preço da gasolina na Venezuela atingiu US$ 0,035 por litro, conforme dados do Global Petrol Prices. Com essa cotação, o custo para encher um tanque de 50 litros não ultrapassava US$ 1,75, um valor que, convertido para o câmbio comercial de janeiro de 2026, equivalia a menos de R$ 10. No entanto, essa aparente vantagem no custo do combustível não se reflete no acesso a veículos novos para a população.
Dados compilados pela Favenpa, entidade que congrega fabricantes de autopeças no país, revelam que a frota circulante na Venezuela tem uma idade média de 22,5 anos. Em comparação, o Brasil registra uma idade média de 10 anos e 10 meses, segundo relatório da Sindipeças-Abipeças. Essa discrepância se manifesta diretamente nas condições das ruas e na operação das fábricas do setor automotivo venezuelano, onde a manutenção e a extensão da vida útil dos veículos existentes se tornaram prioridades, em detrimento da aquisição de novos modelos.
Indústria de autopeças opera com vasta ociosidade
A Favenpa reporta que a indústria nacional de autopeças opera em torno de 30% de sua capacidade produtiva. Isso significa que aproximadamente 70% das máquinas e linhas de produção permanecem ociosas. Essa situação de subutilização industrial é uma consequência direta da obsolescência da frota veicular e da dificuldade da população em adquirir carros novos.
O baixo preço da gasolina, frequentemente associado à riqueza petrolífera da Venezuela, não consegue suprir as carências centrais do mercado automotivo: a escassez de poder de compra e a oferta limitada de veículos. O salário mínimo no país permanece congelado em 130 bolívares desde 2022, e a desvalorização contínua da moeda fez com que, em certos períodos, esse valor representasse menos de meio dólar mensal. Essa realidade econômica restringe o consumo a bens essenciais, relegando a troca de veículos a um luxo inatingível para a grande maioria.
Diante desse cenário, a demanda de mercado direciona-se predominantemente para a manutenção, adaptação e recondicionamento de peças para os carros já em circulação. A Favenpa também alerta para os efeitos colaterais de uma frota tão envelhecida. A manutenção adequada se torna progressivamente mais desafiadora, especialmente em um mercado caracterizado pela diversidade de modelos e pelo baixo volume de unidades de cada um. Omar Bautista, presidente da Favenpa, destacou a complexidade do cenário: “É incrível ter 200 modelos neste país com poucas unidades”. Essa multiplicidade de veículos dificulta a logística de peças e eleva os custos de reposição.
Do auge industrial ao declínio da produção de veículos
O contraste com o passado recente é notável. A produção de veículos na Venezuela atingiu seu pico em 2007, com a fabricação de 172.418 unidades, segundo dados internacionais do setor. Décadas antes, o país se consolidou como um importante polo regional de montagem, atraindo grandes montadoras devido à sua receita oriunda do petróleo e à proximidade com os Estados Unidos. A cultura de carros robustos e potentes, alimentada por gasolina abundante e barata, marcou gerações.
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Contudo, o ambiente industrial venezuelano sofreu uma deterioração progressiva. Restrições cambiais severas, dificuldades na importação de componentes essenciais e a instabilidade econômica generalizada impactaram diretamente a capacidade produtiva. Como muitas linhas de montagem dependiam de insumos importados, a cadeia de suprimentos foi severamente interrompida, levando à paralisação da fabricação de veículos.
Autopeças ganham protagonismo em um mercado de veículos antigos
Com a fabricação de veículos em larga escala praticamente cessada, o setor de autopeças assumiu uma função central na economia automotiva venezuelana. Atualmente, o foco principal é abastecer oficinas mecânicas e proprietários que buscam prolongar a vida útil dos carros existentes. Representantes do setor descrevem a atividade como voltada para o fornecimento de peças básicas e a execução de reparos essenciais.
A alta ociosidade fabril, com operações a apenas 30% da capacidade, evidencia essa realidade. Paralelamente, a indústria local enfrenta a concorrência de produtos importados. Peças similares às fabricadas no país, em sua maioria provenientes da China, somaram US$ 228,5 milhões em importações em um período recente. Esse fluxo de importados reduz o espaço para a produção nacional, mesmo diante do aumento da demanda por serviços de manutenção.
Importações, China e novas parcerias no horizonte automotivo
A fragilidade da indústria automotiva levou o mercado a depender crescentemente de importações e de esquemas de montagem CKD (Completely Knocked Down), onde conjuntos de peças são importados desmontados e montados no país. A Venezuela tem anunciado projetos nesse sentido com montadoras chinesas ao longo da última década.
Mais recentemente, o país intensificou acordos no setor automotivo com o Irã, incluindo planos de exportação de veículos e propostas de reativação industrial. Há também um interesse declarado do governo em firmar parcerias com a Rússia para a produção local de automóveis, com o objetivo de suprir o mercado interno e explorar oportunidades de exportação para países caribenhos. Até o momento, contudo, esses projetos não alcançaram uma escala significativa que altere o panorama geral.
O dado mais expressivo e persistente continua sendo o peso de uma Frota antiga e pouco renovada. Em contraste, o Brasil vivencia um processo distinto, embora também marcado pelo envelhecimento gradual de sua frota. Enquanto a frota brasileira segue em expansão, a idade média dos veículos em circulação também aumenta constantemente. A diferença fundamental entre os dois países reside não no preço da gasolina, mas sim no poder de compra da população, na capacidade produtiva instalada e na previsibilidade do ambiente econômico. Assim, mesmo com o combustível custando centavos, o verdadeiro custo para o motorista venezuelano reside em manter um veículo com mais de duas décadas de uso em condições operacionais minimamente aceitáveis.


