Enquanto a Mazda consolidou seu nome com o motor rotativo em veículos de passeio, a China, em uma iniciativa ousada por volta de 1970, tentou adaptar essa tecnologia para o transporte de carga pesado. Projetos como o do caminhão TJ140, da Tianjin Machine Factory, buscavam soluções leves e com menos peças móveis. No entanto, o que parecia promissor em teoria esbarrou em limitações práticas cruciais, como baixo torque e alto consumo, que inviabilizaram o uso em larga escala no mercado brasileiro e global para essa aplicação.
A experiência chinesa com o motor rotativo em caminhões, exemplificada pelo TJ140, serve como um estudo de caso sobre como a adequação tecnológica é fundamental. Embora o motor rotativo brilhe em aplicações de alta rotação, como em carros esportivos, suas características inerentes mostraram-se inadequadas para as demandas severas do transporte de carga, que exigem força constante em baixas rotações.
O conceito do motor rotativo, aperfeiçoado por Felix Wankel em 1929, já existia há séculos em versões rudimentares. O lançamento do NSU Spider em 1964 marcou a entrada dessa tecnologia em carros de passeio. Na China, a abordagem foi diferente: engenheiros vislumbraram seu potencial para caminhões e ônibus, atraídos pela sua compacidade, leveza e menor número de peças móveis, o que sugeria manutenção simplificada.
A premissa era que a capacidade de atingir rotações elevadas poderia se traduzir em desempenho superior para veículos comerciais. Contudo, essa característica se provaria um dos principais gargalos para o transporte de carga.
Diferentemente dos motores a combustão interna convencionais, que utilizam pistões em movimento linear, o motor rotativo emprega um rotor triangular que gira dentro de uma câmara ovalada. Em um ciclo contínuo, ele executa as quatro etapas essenciais: admissão, compressão, combustão e exaustão. Essa rotação constante resulta em menos vibração e menor complexidade mecânica, fatores que motivaram o interesse chinês.
O caminhão TJ140, capaz de carregar até 4 toneladas, foi um dos expoentes dessa tentativa. Equipado com um motor rotativo de dois rotores, o veículo passou por um rigoroso teste de 10 mil quilômetros na desafiadora rodovia Sichuan-Tibet, conhecida por suas condições extremas e terreno montanhoso. O fato de ter completado o percurso foi, inicialmente, visto como um indicativo de sucesso para a engenharia chinesa da época.
A rodovia Sichuan-Tibet, com suas condições severas e terreno montanhoso, representa um dos maiores testes de resistência para qualquer veículo. O TJ140, surpreendentemente, completou o trajeto, o que em um primeiro momento animou os desenvolvedores.
Apesar da resiliência demonstrada no teste, a aplicação prática expôs a principal falha do projeto TJ140. O motor entregava um torque de apenas 29 kgfm, e isso somente em uma faixa de rotação extremamente alta, próxima a 8.500 RPM. Para um caminhão, a necessidade primordial é de força em baixas rotações para vencer a inércia e transportar cargas pesadas com eficiência. Manter o motor rotativo nessa condição o tempo todo comprometia o desempenho e a durabilidade.
Com o uso contínuo, os problemas se agravaram. O caminhão TJ140 apresentava um consumo de combustível exorbitante, tornando sua operação economicamente inviável para frotistas e empresas de logística. Além disso, componentes vitais, como as vedações do rotor (apex seals), sofriam desgaste acelerado. Esse atrito contínuo resultava na perda de compressão do motor, diminuindo ainda mais sua eficiência e elevando o consumo de óleo, uma bola de neve que tornou a tecnologia insustentável para o transporte pesado.
A experiência com o TJ140 não foi um caso isolado. O caminhão Qiantangjiang, da Jinhua Repair Factory, prometia uma autonomia de até 50 mil quilômetros sem manutenção pesada. Contudo, na prática, falhas graves, incluindo perda de compressão e consumo excessivo de óleo, surgiram antes dos 30 mil quilômetros rodados. Esses episódios reforçaram que as limitações do motor rotativo para aplicações em veículos de carga eram inerentes à sua concepção, e não apenas falhas de execução pontuais.
A tentativa chinesa de empregar motores rotativos em caminhões, embora tenha fracassado, representa um importante aprendizado para a engenharia automotiva. Ela demonstra que a adaptação de tecnologias de um segmento para outro exige uma análise profunda das demandas específicas de cada aplicação. Enquanto o motor rotativo encontrou seu nicho em veículos que priorizam alta performance e rotação, como os esportivos, ele não se mostrou apto a suprir as necessidades de torque e resistência contínua exigidas pelo setor de transporte de carga.
No fim, o projeto do TJ140 e iniciativas similares na China tornaram-se marcos de experimentação ousada, evidenciando que a evolução da indústria automotiva se faz, em grande parte, por meio de testes, aprendizados e adaptações, mesmo quando os resultados iniciais não são os esperados.
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