Projetos de energia solar enfrentam barreiras crescentes em diversas cidades dos Estados Unidos, impulsionados por temores de moradores sobre supostos riscos à saúde associados aos painéis. Especialistas alertam que essa resistência, muitas vezes baseada em boatos sem comprovação científica sólida, está atrasando investimentos e complicando os esforços de transição energética no país.
Essa onda de oposição surge em um momento crucial para a expansão da energia renovável. Estados como Michigan, Texas, Arizona e Califórnia lideram em capacidade planejada para fazendas solares, mas a pressão local tem levado a proibições e entraves regulatórios. Um exemplo claro é o caso de Kevin Heath, no sudeste de Michigan, que viu a oportunidade de arrendar terras de sua fazenda para um projeto solar ser bloqueada por uma nova regra municipal que proíbe grandes instalações solares em áreas agrícolas, após intensa pressão de moradores.
As críticas aos painéis de energia solar extrapolam as preocupações com o uso do solo e adentram o campo da saúde pública. Moradores e grupos opositores levantam receios sobre efeitos de campos eletromagnéticos, reflexos intensos, ruídos gerados por inversores e a potencial contaminação futura por materiais tóxicos quando os painéis chegarem ao fim de sua vida útil. No entanto, Kevin Heath, que teve seu projeto bloqueado, ressalta a falta de provas concretas: “A questão da saúde e segurança, isso é uma piada”, afirma.
Um artigo da Brigham Young University Law Review, publicado no final do ano passado, apontou que limitações ao desenvolvimento solar estão se espalhando nacionalmente, frequentemente atreladas à desinformação e a medos infundados. Em Ohio, um projeto solar foi rejeitado por uma autoridade estadual, mesmo com pareceres iniciais favoráveis, citando preocupações com a saúde dos moradores. No Missouri, um projeto de lei propõe a paralisação de empreendimentos solares comerciais até 2027, justificando a medida pela necessidade de preservar a saúde pública e a segurança.
Michael Gerrard, advogado ambiental e fundador do Centro Sabin para Direito da Mudança Climática da Universidade Columbia, é categórico ao desmistificar os receios sobre a saúde: “Não há fundamento para isso”. Ele sugere que tais justificativas podem mascarar outras aversões à tecnologia.
Grandes fazendas solares, compostas por milhares de painéis de silício cristalino e vidro temperado, podem transformar a paisagem rural, o que contribui para parte da resistência. Contudo, pesquisadores indicam que os tipos mais comuns de painéis contêm pequenas quantidades de materiais potencialmente tóxicos, que ficam encapsulados e com baixa probabilidade de vazamento.
A exposição a campos eletromagnéticos gerados por essas instalações é comparada à de eletrodomésticos comuns e diminui rapidamente com a distância. Ruídos e reflexos também costumam ser mitigados por meio de vegetação, recuos adequados e posicionamento estratégico dos inversores, que são os principais emissores de som em tais empreendimentos. Em projetos em Ohio, modelagens de ruído indicaram que o equipamento seria praticamente inaudível para o público, com obrigações de correção caso limites sejam ultrapassados.
No condado de St. Clair, em Michigan, o debate ganhou contornos polêmicos com declarações do diretor médico do Departamento de Saúde, Dr. Remington Nevin, que em memorandos sugeriu que grandes instalações solares poderiam apresentar riscos à saúde de moradores rurais. Ele também argumentou que as normas estaduais seriam insuficientes para protegê-los de riscos ambientais e potenciais fontes de contaminação.
Essas alegações levaram o condado a adotar uma regulamentação de saúde pública com limites para o desenvolvimento solar e armazenamento de baterias. A medida, no entanto, foi considerada inválida por um juiz de circuito em fevereiro, mas autoridades locais optaram por recorrer. Essa disputa ocorre em um estado que estabeleceu metas ambiciosas de energia limpa, exigindo 80% de energia renovável até 2035 e 100% até 2040. Atualmente, a energia solar representa apenas 2,55% da matriz energética do estado, bem abaixo de outros estados como Ohio (quase 6%) e Texas (quase 11%).
O avanço do chamado “medo solar” coincide com uma queda de 14% nas novas instalações solares nos Estados Unidos no último ano. A pressão local dificulta a expansão da infraestrutura renovável em um período de aumento nos custos de energia para os consumidores. Empresas desenvolvedoras de projetos também sentem o impacto. A Open Road Renewables, por exemplo, suspendeu novos projetos em Ohio devido a um processo de licenciamento considerado manipulador e sujeito a desinformação.
A polêmica em torno dos painéis solares levanta questionamentos sobre o peso que receios infundados devem ter nas decisões municipais e sobre o equilíbrio entre preocupações locais e a necessidade de avançar em direção a um futuro energético mais sustentável. A influência da desinformação em políticas energéticas pode atrasar significativamente o progresso e os investimentos em tecnologias limpas, afetando tanto consumidores quanto o mercado de energia nacional.
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