Perua Passat: um clássico híbrido entre concessionária e customização
A Perua Passat construída pela revendedora Sorana no início dos anos 80 foi um produto híbrido: basicamente um Passat LSE transformado em station wagon, com acabamento refinado e preço que a tornou um sonho distante. Testada pela revista Quatro Rodas, com reportagem de Claudio Carsughi e fotos de Heitor Hui, a perua manteve desempenho e consumo próximos ao sedã de origem, mas ofereceu muito mais espaço. Ajustada pelo IGP‑DI (FGV), o valor original de Cr$ 1.500.000,00 equivale hoje a cerca de R$ 179.672,45 — arredondado, R$ 180.000 — um patamar que já delimita claramente o público-alvo desse tipo de veículo no mercado brasileiro.
- Perua Passat: um clássico híbrido entre concessionária e customização
- Origem e contexto: quando concessionária virou atelier
- O que mudou no carro: transformação, acabamento e detalhes práticos
- Desempenho, consumo e comportamento dinâmico — análise técnica
- Preço, valor atualizado e o mercado de restauração
- Considerações finais para quem pensa em comprar ou restaurar
- Perguntas frequentes
Neste texto analisamos a gênese do projeto, as escolhas técnicas da Sorana, o comportamento dinâmico, custos e implicações para quem considera restaurar ou investir em um exemplar. Além de reconstituir dados de desempenho e ficha técnica, explicamos, com exemplos práticos, como características do motor, suspensão e distribuição de carga influenciam direção, manutenção e Segurança — fatores essenciais para avaliar um automóvel clássico que nasceu como conversão de concessionária.
Origem e contexto: quando concessionária virou atelier
Na década de 1970 e até o final dos anos 80 o mercado brasileiro tinha oferta limitada de modelos, cores e opcionais. Isso abriu espaço para oficinas, revendas e pequenas fabricantes criarem versões fora de série — carrocerias em fibra sobre mecânicas das grandes marcas, kits de estética e preparações mecânicas.
No universo Volkswagen, nomes como Dacon (SP) e Besouro (RJ) fizeram tentativas semelhantes; a Dacon chegou a produzir uma perua Passat em 1978, mas o projeto não prosperou em série. A Sorana, também revendedora VW de São Paulo, optou por transformar o Passat LSE — versão topo de linha — em uma perua com cinco portas, mantendo a mecânica mais potente disponível no LSE e priorizando acabamento interno em couro e ar‑condicionado de painel.
Há uma razão comercial clara: a fabricante alemã oferecia o Passat Station Wagon na Europa, mas no Brasil evitou introduzi‑la oficialmente para não canibalizar a Variant. Assim, a iniciativa partiu de concessionárias que identificaram demanda por espaço e conforto combinados ao estilo do LSE. A Sorana cobrou por isso um prêmio relevante, posicionando o produto como alternativa para um público mais exigente e disposto a pagar por exclusividade.
O que mudou no carro: transformação, acabamento e detalhes práticos
A conversão da carroceria começou no terceiro vidro lateral, estendendo a linha do teto e acrescentando um vidro de abertura em compasso por lado. A traseira foi redesenhada e ganhou a quinta porta — fácil de acionar, porém pesada — que abriu acesso a um compartimento de carga bem maior do que o sedã.
No interior, a Sorana manteve o painel original do Passat LSE, trocando o relógio de horas por um manômetro de óleo no console — solução comum em conversões que visam aprimorar a percepção de controle mecânico. O estofamento em couro nas poltronas e nas laterais das portas, o carpete caprichado e a opção pelo ar‑condicionado elevaram a sensação de carro de luxo.
Entre os pontos críticos está o terceiro vidro lateral articulado: a vedação em borracha apresentava irregularidades e faltava uma moldura cromada externa, detalhes que comprometeram acabamento e impermeabilidade. Outro aspecto prático foi a posição do estepe na área de carga; apesar de manter a superfície plana quando o estepe está no lugar, o acesso a bagagem em viagens pode exigir sua remoção — algo a considerar em uso familiar ou de utilitário leve.
Desempenho, consumo e comportamento dinâmico — análise técnica
Segundo a avaliação de Quatro Rodas (outubro de 1981), a perua Sorana manteve desempenho próximo ao Passat LSE: velocidade máxima média nas frenagens registrada em 151,896 km/h e aceleração de 0 a 100 km/h em 14,21 segundos. Em estrada, com apenas o motorista, o consumo foi de 13,77 km/litro. Esses números mostram que a conversão não degradou substancialmente a relação peso‑potência do veículo.
No plano mecânico, o motor dianteiro 1.588 cm3 com comando no cabeçote e carburador duplo gerava 96 cv SAE (aprox. 70,6 kW) a 6.100 rpm e torque máximo de 13,2 mkgf a 3.600 rpm — características que conferem resposta adequada em estrada e capacidade de cruzeiro. A tração dianteira e a suspensão dianteira independente McPherson ajudam a manter previsibilidade na direção.
Entretanto, o comportamento em curvas muda com carga: a perua vazia responde mais rapidamente à direção; carregada, o atraso e a exigência de correções discretas aumentam. Esse efeito é típico de veículos com longa área de carga e eixo traseiro de eixo rígido com molas helicoidais: a transferência de massa altera a inércia rotacional. Para motoristas, o conselho prático é observar distribuição de peso ao carregar o carro e reduzir a velocidade em curvas quando o veículo estiver com carga máxima — pequenas correções bruscas podem amplificar a instabilidade.
Preço, valor atualizado e o mercado de restauração
O preço do carro testado em 1981 era Cr$ 1.500.000,00 — valor analisado e corrigido pelo IGP‑DI (FGV) que equivale a aproximadamente R$ 179.672,45 na atualização apresentada pela fonte jornalística, arredondando para R$ 180.000. Esse nível de preço sinalizou que a perua se destinava a um público específico, com maior poder aquisitivo ou interesse em um automóvel exclusivo.
No mercado de clássicos, um exemplar assim mistura apelo de raridade e custos adicionais: peças específicas de carroceria, retrofits de vedação, restauração de interior em couro e revisão do sistema elétrico são itens que elevam o custo final. Quem considera comprar ou restaurar uma Perua Passat deve contar com orçamento para manutenção básica (freios, suspensão, correias e carburadores) e para itens de carroceria — nem sempre fáceis de reproduzir fielmente.
A perspectiva prática: para conservar a utilidade diária, priorize revisão do sistema de freio (discos dianteiros e tambores traseiros), checagem de buchas e amortecedores, e ajuste fino do carburador duplo para manter consumo e emissão compatíveis com uso atual. Para uso esporádico ou coleção, o foco costuma ser a preservação estética e a originalidade das peças.
| Ficha técnica (resumo) | Dados |
|---|---|
| Motor | 1.588 cm³, 4 cilindros, 96 CV SAE, carburador duplo |
| Transmissão | Câmbio 4 marchas, tração dianteira |
| Suspensão | DIANTEIRA: McPherson | TRASEIRA: eixo rígido |
| Dimensões | Comprimento 428,1 cm | Entre‑eixos 247 cm | Peso 970 kg |
| Desempenho | 0–100 km/h em 14,21 s | Vel. máx. ≈ 151,9 km/h |
| Consumo (rodovia) | 13,77 km/l (apenas motorista) |
| Preço original (1981) | Cr$ 1.500.000,00 → Atualizado: R$ 179.672,45 (IGP‑DI, FGV) |
Considerações finais para quem pensa em comprar ou restaurar
A Perua Passat da Sorana é um exemplo claro de como revendas e pequenas fabricantes preencheram lacunas do mercado brasileiro quando as montadoras evitavam produzir certas carrocerias. Para colecionadores, trata‑se de uma peça com valor histórico e apelo estético; para quem busca um carro de uso diário, exige avaliação rigorosa de estado de conservação, integridade da conversão e disponibilidade de peças.
Do ponto de vista técnico, a perua preserva as qualidades do Passat LSE: suspensão correta para a época, motor com fôlego suficiente e comportamento previsível em usos normais. Já os custos de manutenção e restauração, especialmente em itens de carroceria e vedação, devem ser incluídos no orçamento. Em resumo, é uma opção interessante para quem valoriza exclusividade, espaço e acabamento — desde que ciente de que essa exclusividade tem preço, tanto na compra quanto na manutenção.
Perguntas frequentes
1) A Perua Passat da Sorana foi fabricada pela Volkswagen?
Não. Era uma conversão realizada por uma revendedora VW (Sorana) a partir de um Passat LSE. A VW no Brasil não chegou a fabricar oficialmente a versão station wagon do Passat, por receio de canibalizar a Variant.
2) Qual o consumo médio real da Perua Passat?
Segundo testes da época, em estrada e apenas com motorista, registrou 13,77 km/l. Na prática, consumo varia conforme carga, manutenção do motor e condições de uso.
3) Quanto custaria restaurar uma unidade hoje?
O custo varia bastante: restauração mecânica básica pode ficar em alguns milhares de reais; recuperação de carroceria, pintura e réplica de peças específicas aumentam muito o valor. Orçamento prévio detalhado é imprescindível.
4) Quais cuidados mecânicos são prioritários?
Revisão de freios, suspensão (amortecedores e buchas), correias, ajuste do carburador e verificação da vedação das portas e vidros. Em veículos antigos, atenção ao sistema elétrico e corrosão estrutural.
5) É difícil encontrar peças para essa perua?
Peças mecânicas do Passat LSE são mais acessíveis que as específicas de carroceria. Componentes de vedação, vidros e partes da quinta porta podem exigir fabricação sob medida ou busca em redes de clássicos e desmontes.
Fontes consultadas: matéria e teste da revista Quatro Rodas (reportagem de Claudio Carsughi, fotos de Heitor Hui), relatos históricos sobre Dacon, Sorana e Besouro, e correção monetária pelo IGP‑DI (FGV) apresentada na apuração original.







